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Festival HotSpot em Belém: quando o porto virou galeria

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Festival HotSpot em Belém: quando o porto virou galeria

O Festival Movimento HotSpot chegou a Belém para cumprir a etapa Norte e ocupou todo o Galpão 03 da Estação das Docas com trabalhos de criativos selecionados no Amazonas, no Pará e em Rondônia. Da noite de sexta-feira à meia-noite de domingo, a programação combinou mostra, oficina, conversas, projeções e shows, e levou um cortejo teatral ao mercado Ver-o-Peso.

Mais do que uma mostra itinerante, a passagem pela cidade foi o primeiro encontro presencial de boa parte daqueles criativos.

Como foi o festival em Belém

As atividades começaram no entardecer da sexta, quando os primeiros visitantes entraram no galpão. O mesmo momento serviu para que os selecionados dos três estados se conhecessem e conversassem com a organização. O assunto dominante era a etapa seguinte: a lista dos que seguiriam para o Tanque de Ideias, com anúncio previsto para 22 de julho.

A ansiedade em torno da escolha dos curadores durou pouco e virou troca de referências. Eliza Kunz, da categoria Ideia com o projeto TetraKing, disse que o melhor foi contar do próprio trabalho e receber sugestões. Daniel Santi, de Manaus, inscrito em Ilustração, já havia pedido a amigos em Brasília e em Porto Alegre que fotografassem sua peça exposta; em Belém ouviu pela primeira vez o comentário do público ao lado do trabalho.

À noite, a oficina de stencil de Drika Chagas dividiu espaço com uma conversa sobre redes sociais e manifestações, conduzida por Caio Tulio Costa, curador de Ideia. No palco, o Projeto Charmoso abriu para a convidada Luê, e os pedidos de bis esticaram a apresentação. No sábado, enquanto a categoria Ideia era avaliada, o Grupo Periféricos levou ao Ver-o-Peso uma trupe de teatro mambembe, com personagens satíricos que circularam entre feirantes por quase duas horas.

O galpão e a cidade

Antigos armazéns portuários convertidos em área de convivência oferecem pé-direito alto, planta ampla e relação direta com a água — condições que permitem montar muitos trabalhos sem compartimentar o percurso. O resultado tende a ser uma visita contínua, em que o público atravessa categorias diferentes sem trocar de ambiente.

A geografia entrou na programação. O Ver-o-Peso, mercado que é também território de trabalho, recebeu a intervenção teatral na manhã de sábado; à noite, os shows foram para o anfiteatro São Pedro Nolasco, à beira do rio. Três pontos distintos — galpão, feira e anfiteatro — ampliaram o alcance para além de quem já frequenta espaços expositivos.

A programação, etapa por etapa

O desenho misturou formatos de durações muito diferentes: uma mostra aberta por horas, uma oficina de grupo pequeno, um cortejo que atravessa uma feira, shows de quarenta minutos.

EtapaO que aconteciaOnde
Sexta, entardecerAbertura da mostra e encontro entre selecionados dos três estadosGalpão 03, Estação das Docas
Sexta, noiteOficina de stencil, conversa sobre redes sociais, shows de Projeto Charmoso e LuêGalpão e palco
Sábado, manhãAvaliação da categoria Ideia e cortejo do Grupo PeriféricosEstação das Docas e Ver-o-Peso
Domingo, 19hPregões: Melodia das Ruas, com Grupo Quaderna, e banda StroboAnfiteatro São Pedro Nolasco
Domingo, 21hGangue do Eletro e DJ Jaloo, com encerramento à meia-noiteAnfiteatro São Pedro Nolasco

Enquanto o público seguia o palco na sexta, rostos gigantes iluminados apareciam nas copas das árvores ao redor: projeções de Roberta Carvalho para o projeto Symbiosis, que pareciam observar a plateia. No domingo, a sequência foi do Grupo Quaderna ao treme paraense da Gangue do Eletro e terminou com DJ Jaloo, que apresentou música autoral pela primeira vez em sua terra natal, com uma dupla de bailarinos em movimentos de body contact — e um look do designer paraense Marco Normando, selecionado na categoria moda.

Curadoria e seleção

A seleção não era abstrata para quem estava ali. Com o anúncio dos escolhidos para a etapa seguinte marcado para 22 de julho, a presença dos curadores transformava a espera em conversa. Caio Tulio Costa circulou entre os projetos e conduziu o debate público; a avaliação de Ideia ocupou a manhã de sábado.

Entender o critério importava tanto quanto o resultado. Saber como um curador lê uma proposta muda a forma como o criativo apresenta o trabalho dali em diante. Ideia ocupa ainda um lugar peculiar, porque não julga um objeto pronto, mas uma proposta; daí parte da ansiedade relatada e a presença de perfis híbridos, como arquitetos propondo equipamentos culturais.

Público e números

O relato da passagem por Belém não informa o total de visitantes, e essa ausência diz algo: fora do eixo das grandes mostras, a contagem de público costuma ser o primeiro dado a desaparecer. O registro oferece marcas de intensidade.

  • Três estados representados na mostra: Amazonas, Pará e Rondônia.
  • Uma oficina de stencil e ao menos duas conversas abertas ao público.
  • Quatro apresentações musicais, com encerramento de DJ à meia-noite.
  • Uma intervenção de rua com quase duas horas de duração.

Em outras etapas, os relatos falam de cinco mil a cerca de vinte mil pessoas. Belém aparece como uma passagem de escala menor e circulação concentrada, o que não se confunde com menor adesão: o galpão cheio numa sexta-feira conta uma história própria.

O que ficou depois

A mostra desmontou, o palco foi desfeito, o galpão voltou à rotina. O que permanece são vínculos: Daniel Santi saiu com percepção mais clara de como o público lê suas ilustrações, Eliza Kunz com sugestões e contatos, Marco Normando com um look visto no palco por uma plateia que talvez não frequentasse exposição de moda.

Há também o efeito sobre a cidade. Uma mostra que ocupa um galpão turístico, um cortejo que atravessa o principal mercado e shows à beira do rio colocam a produção local em circuitos onde ela não costuma aparecer. Quem passou pelo Ver-o-Peso na manhã de sábado viu a produção de três estados sem se inscrever em nada.

Como ler esses eventos hoje

Reconstruir a passagem de um festival exige cuidado com o que o registro não diz: não há números de visitação, orçamento nem lista completa de obras. O que existe é uma sequência de decisões — onde montar, o que programar, quem convidar para falar.

Uma chave é a relação entre mostra e conversa: com rodas abertas e oficinas, o evento deixa de ser vitrine e passa a funcionar como formação. Outra é o lugar escolhido, que sinaliza a intenção de alcançar quem não entra em museu por hábito. A terceira é a escala, que permite ao selecionado conversar com um curador sem mediação. Vale comparar com o que se discute em espaços culturais na cidade e com a lógica de circulação descrita em cena independente.

Leia com contexto. Todo conteúdo deste site é informativo e geral. Quando um dado varia conforme o projeto, a instituição ou o prazo, indicamos onde confirmar. Nada aqui substitui leitura de edital, contrato ou consultoria especializada.

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