São Luís: dois dias no Convento das Mercês
O festival do Movimento HotSpot chegou a São Luís com uma programação de conversas, oficinas e música, e teve parte da grade cancelada. As manifestações que fecharam boa parte dos acessos ao Centro Histórico impediram o show de encerramento da banda Criolina, e a etapa terminou sem a festa que estava prevista.
Mesmo assim, os dois dias no Convento das Mercês renderam encontros entre os selecionados do Ceará e do Maranhão, uma exposição aberta ao público e um conjunto de mesas sobre profissionalização e empreendedorismo cultural. O relato abaixo reconstitui o que aconteceu e o que a cidade viu.
Como foi a etapa maranhense
Penúltima etapa do festival, São Luís seguiu o formato anterior: mostra dos selecionados, programação de conteúdo e shows. A diferença estava no clima político da cidade. Com os acessos ao centro bloqueados, o deslocamento virou parte do problema, e a organização precisou ajustar a agenda em cima da hora.
Ainda assim, quem participou descreveu os dias como inspiradores e colaborativos. Os criativos selecionados no Ceará e os do Maranhão, que até então não se conheciam, encontraram muitas afinidades; além de projetos, saíram amizades.
O espaço: o Convento das Mercês e o centro fechado
O Convento das Mercês concentrou quase tudo: exposição, mesas, oficinas e as noites de música. Um edifício histórico que abriga um evento de produção contemporânea impõe condições próprias, de circulação a horários, e obriga a curadoria a pensar a mostra em relação à arquitetura, não apenas às paredes.
O entorno, porém, pesou no resultado. Como os protestos fecharam a maioria dos caminhos para o Centro Histórico, o público teve de decidir se atravessava os bloqueios para chegar ao convento. Quem foi, foi por escolha, e isso mudou a atmosfera.
Programa: mesas, oficinas e shows
Abertura e primeira noite
Na noite de abertura, uma quarta-feira, 10 de julho, um coquetel celebrou a exposição e reuniu autoridades e formadores de opinião para prestigiar os selecionados de todo o país que estavam representados ali. O primeiro dia terminou com o show do convidado Phill Veras, que emocionou uma plateia jovem, capaz de cantar junto todas as faixas do repertório.
Oficina de criação coletiva
No segundo dia, mais de trinta pessoas participaram das oficinas de criação com o professor Delano Rodrigues, da UFMA, que trabalhava com metodologias de co-criação. A proposta era produzir um vídeo de recortes de imagens inspirado no repertório da banda Criolina, para ser projetado no encerramento do festival.
Mesas e rodas de conversa
A programação incluiu rodas sobre empreendedorismo e profissionalização, com a participação de um contador e consultor do Sebrae no Maranhão, de um produtor de áudio e vídeo sócio de uma empresa de conteúdo, da designer Mariana Ochs e de uma gestora do projeto de atendimento individual do Sebrae.
Outra mesa discutiu os canais de distribuição de arte e fotografia na cena contemporânea, com o fotógrafo e curador Renato de Cara, diretor da Galeria Mezzanino, que falou de sua experiência na organização de mostras individuais e coletivas e do trabalho de inserção de jovens talentos no mercado de arte. A conversa teve ainda uma artista e produtora cultural e uma turismóloga que coordena um ponto de cultura.
Curadoria: fotografia, design de conteúdo e gestão
A presença de Renato de Cara engajou os criativos da cidade, que levaram dúvidas sobre circulação de imagem e entrada no circuito de galerias. Mariana Ochs, curadora de Design Gráfico, discutiu design de conteúdo e fez uma distinção útil: o trabalho não depende do suporte e se organiza como arquitetura de informação, o que o diferencia do design de revista.
Ela também defendeu que sempre haverá espaço para o design, com o mercado em crescimento e as novas tecnologias transformando a maneira de trabalhar. A afirmação, numa etapa em que boa parte do público era de empreendedores, soava como resposta a quem perguntava onde caberia seu trabalho.
Público e números
Os números da etapa são modestos e refletem o contexto: dois dias de evento, com parte da programação afetada por fatores externos.
| Frente | O que ficou registrado |
|---|---|
| Local | Convento das Mercês: exposição, mesas, oficinas e shows |
| Abertura | Quarta-feira, 10 de julho, com coquetel para a mostra |
| Oficina | Mais de trinta participantes, com Delano Rodrigues, da UFMA |
| Shows | Phill Veras na abertura; Guerreiro Zumbi no encerramento |
| Cancelamento | Show da banda Criolina, por causa dos bloqueios no centro |
O que restou depois do cancelamento
O vídeo produzido na oficina ficou sem a projeção prevista para o encerramento, mas o trabalho não se perdeu: o material passou a circular como registro do que a etapa construiu em dois dias. E o show que fechou a programação foi o do Guerreiro Zumbi, único candidato de música selecionado no Maranhão, com repertório de reggae.
A comparação com outras etapas é inevitável: onde houve rua livre, o festival virou festa aberta; onde houve bloqueio, o festival recolheu-se ao edifício e ganhou escuta mais próxima e menos numerosa.
Como ler um festival que perde parte da programação
Um evento com show cancelado expõe a dependência entre programação e cidade. Para avaliar o que sobrou, vale olhar para além da grade.
- O que foi mantido e o que foi cortado, e por qual motivo.
- Se as atividades de formação aconteceram independentemente do palco.
- Que tipos de economia criativa a programação colocou em discussão.
- Se o evento gerou rede entre cidades e não apenas público.
Nesse caso, a resposta está nas mesas e na oficina: um vídeo feito coletivamente, um debate sobre design de conteúdo e uma conversa sobre distribuição de fotografia em espaços expositivos produzem efeito mais duradouro do que uma noite de show — mesmo quando ninguém planejava isso.
Leia também
Festival HotSpot em Belém: exposição no Galpão 03
Mostra no galpão do porto, cortejo no Ver-o-Peso e programação musical: como o festival ocupou Belém.
Festival HotSpot em Belo Horizonte: 303 selecionados
Da seleção de 1642 projetos à mostra no museu: como a etapa mineira ocupou a cidade.
Festival HotSpot em Brasília: arquitetura e criação
Mostra, projeções e debates em Brasília: como a etapa da capital organizou o percurso.