Festival HotSpot em Belo Horizonte: do museu ao centro
Belo Horizonte fechou a etapa de festivais do Movimento HotSpot nos dias 19 e 20 de julho, recebendo candidatos de São Paulo, do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. A escolha da capital mineira não foi casual: entre as 303 propostas selecionadas no país, 111 vinham do Sudeste e 31 eram mineiras, com predominância de Arquitetura, Ilustração e Ideia.
Foram dois dias de exposição, rodas de conversa e shows, entre um museu na região central, uma casa de música e um cortejo que atravessou a Savassi.
Como foi o festival em Belo Horizonte
A recepção aos selecionados aconteceu na sexta-feira, no Museu Inimá de Paula, e era sobretudo conversa. "Temos dois dias para nos conhecer melhor e levar para casa mais informação e contatos", resumiu Augusto Mariotti, um dos organizadores, para quem o movimento não se encerra nos festivais e continua como processo nas sementes plantadas ali.
Após o coquetel, o grupo seguiu para o Granfinos, com os selecionados Luciano Sprovieri, David Dines e Multisambofônico. A noite terminou com Thiago Pethit e suas canções de cabaré.
O segundo dia começou ao som do maracatu: o Baque de Mina saiu da entrada do museu em cortejo rumo à Savassi e à Praça da Liberdade. Formado só por mulheres e com sete meses de existência, o grupo é comandado por Celso Soares Corisco, que estuda há doze anos os ritmos do Nordeste, entre eles o maracatu de baque virado. Na Savassi, o batuque encontrou a intervenção VIrus 880, de Léo Pilo, feita com sacolas de plástico.
O museu, a casa de shows e a rua
O festival ocupou três endereços com funções distintas. O Museu Inimá de Paula concentrou a mostra e as conversas, em salas que convidam a ficar. O Granfinos assumiu a noite musical, com palco e pista. A rua entrou como percurso: o cortejo saiu do museu, passou pela Savassi e terminou na Praça da Liberdade.
A divisão tem efeitos práticos: a mostra em museu pede suportes e iluminação controlada, a casa de shows pede outra relação com o som, e o cortejo depende de percurso e de atrair quem não saiu de casa para isso. Juntas, as três frentes ampliam o alcance de um evento que, visto só como mostra, ficaria restrito a quem já circula por espaços expositivos.
A programação, etapa por etapa
A mostra abria das 18h às 21h no dia 19 e das 10h às 19h no dia 20. Entre uma coisa e outra, o público acompanhava conversas, intervenções e shows.
| Etapa | O que acontecia | Onde |
|---|---|---|
| Sexta, 18h às 21h | Recepção aos selecionados, mostra e coquetel de abertura | Museu Inimá de Paula |
| Sexta, noite | Shows de Luciano Sprovieri, David Dines e Multisambofônico, com Thiago Pethit | Granfinos |
| Sábado, manhã | Cortejo de percussão do Baque de Mina e intervenção VIrus 880 | Savassi e Praça da Liberdade |
| Sábado, tarde | Rodas de conversa com curadores de Design, Moda e Música | Memorial Minas Gerais Vale |
| Sábado, noite | Shows de Daniel Limaverde, Gigi Suleiman, Janaína Fellini e Dom de Oliveira, com Zimun e DJs | Granfinos |
No Memorial, Waldick Jatobá abriu com "Design, inovação, imaginação", mostrando obras dos Irmãos Campana, de Ron Arad, Maarten Bas, Rodrigo Almeida, Léo Capote e da dupla Neute e Chvaicer para falar da arte por trás da função de um objeto. Em seguida, a diretora de redação da revista Elle apresentou o processo criativo de uma publicação, das capas às seções fixas, entre prazos, orçamentos e imprevistos.
A terceira mesa, "Remix, até quando?", reuniu o crítico José Flávio Junior, Suzana Barbosa e Waldick Jatobá, com mediação de Augusto Mariotti, para discutir o que ainda pode ser considerado inédito quando toda inovação parece derivar do que veio antes.
Curadoria e critérios de seleção
Três curadores participaram das rodas: Waldick Jatobá, de Design; Suzana Barbosa, de Moda; e José Flávio Jr, de Música. Para eles, o festival era também etapa de avaliação, já que a conversa com os candidatos precede a escolha dos que seguem para o Tanque de Ideias.
Suzana descreveu esse lugar de observação: mais do que o conceito, interessa a funcionalidade da roupa, e ver os trabalhos de perto aproxima o curador da decisão certa. José Flávio tratou da transformação do jornalismo musical: com tantas plataformas, o crítico deixou de apresentar novidades e passou a indicar onde encontrá-las.
O percurso de um candidato ilustra o alcance do processo. Rogério Makssur Ajub, arquiteto de Conceição do Rio Verde, no interior mineiro, viu um anúncio na televisão e inscreveu quatro projetos. Dois foram selecionados: "Arena Cultural", em Arquitetura, inspirada na bandeira do Brasil para abrigar eventos culturais, e "Gabarito de Escada", em Ideia.
Público e números
As 1.642 propostas enviadas em 11 categorias resultaram em 303 selecionadas; 111 vieram do Sudeste e 31 eram de Minas Gerais, com predomínio de Arquitetura, Ilustração e Ideia.
- Dois dias de programação: 19 e 20 de julho.
- Cortejo com 25 mulheres em percussão, saindo do museu até a Savassi.
- Quatro selecionados de Música na noite de sábado, além de uma banda convidada e DJs.
O relato não informa o total de visitantes. Sabe-se a composição do público: candidatos das três regiões, curadores, convidados e quem passou pelo cortejo na rua.
O que ficou depois
Para os selecionados, o saldo imediato foi informação e contato: Rogério saiu com dois projetos apresentados e a perspectiva de levar adiante o gabarito de escada. Para o público, ficou a chance de ouvir curadores explicando o que observam em um trabalho — algo raro em processos seletivos.
Ficou também uma marca de ocupação urbana: o cortejo transformou três pontos da cidade em palco improvisado, com percussão, dança e uma intervenção de sacolas plásticas. O Quarteirão do Soul, que se apresenta aos sábados embaixo do Elevado Santa Teresa, mostrou como uma prática local pode se incorporar à programação de um evento nacional.
Como ler esses eventos hoje
Belo Horizonte fechou a etapa de festivais e, por isso, o relato funciona como balanço. Três dados merecem atenção: a concentração de propostas no Sudeste, o peso de Arquitetura, Ilustração e Ideia entre os mineiros e a escolha de uma cidade média para encerrar a circulação.
Uma chave é olhar para quem fica com o quê: o candidato leva contatos, o curador leva repertório, a cidade leva uma programação que ocupa museu, casa de shows e rua. Outra é o formato das conversas — mesas com curadores de áreas diferentes, no mesmo espaço da mostra, produzem cruzamentos que dificilmente ocorreriam em eventos segmentados.
Para quem acompanha a cena, vale comparar esse desenho com o que se discute em cidades criativas, com a montagem descrita em cenografia e exposição e com a circulação de bandas tratada em cena independente.
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